31 de dezembro de 2009

um ano, um problema de comunicação, este poema é

uma arma, uma arma branca, uma arma de fogo, uma arma pesada, uma arma de guerra, uma guerra de dissuasão, uma dissuasão atômica,

um átomo.

[e dá-se assim por inaugurado the contemporary what's happening !]

extra : bolsa brasileira tem a maior alta do mundo após a crise. em dólar, Bovespa sobe 142% e recupera US$ 738 bi do seu valor.

30 de dezembro de 2009

a cidade está no homem rio de janeiro, ou moscou, dezembro / janeiro, 2009-10

nós sabemos, todo nós, eu, Nadja, Lucas, Pedro, Ismar e consorte, enfim quase todo mundo. mas não da mesma maneira que um pássaro está na arvore. e nem da mesma maneira que o susto do pássaro está no pássaro que eu escrevo.

tempo : com a derrota de Hitler e a rendição da Alemanha em maio, terminava na Europa a guerra que durou cinco anos, oito meses e seis dias. no Pacífico, no entanto, as batalhas continuaram, e a rendição oficial só viria no início de setembro - depois de os Estados Unidos terem lançado duas bombas atômicas sobre as cidades de Hiroshima e Nagasaki.

28 de dezembro de 2009

Prezado Gregório Duvivier,
Como você bem sabe nos vimos ontem na Cobal do Leblon, eu e Nadja, você e a sua. lembro de ter ouvido atentamente entre um chopp suas considerações sobre o erro que é a arquitetura no Rio de Janeiro e até mesmo uma referência positiva à padronização das cores dos arrondissements parisiens. mas no entanto, Gregório, gostaria de lembral-lhe que a natureza é bela, e Cézanne, e Messiaen, etc...
Deve ser ainda porque eu acordei hoje com a idéia de uma Novíssima Cartografia Carioca - um contraprojetíl alargado.
- que me diz ?

26 de dezembro de 2009

after the shooting, the bodies were covered with canvas. it wouldn’t be neither the first nor last relevant art performance in the last century : in 1955, in a post fascist Japan, an artist Murakami created his reportedly stunning performance Laceration of Paper, in which he ran through a paper screen - 3 years after the Romanian revolution leading to the Ceacescu incident, on the same December 25, Mikhail Gorbachov resigned to the presidency of the Soviet Union.

morale of the story : the following day, December 26, the Supreme Soviet, the highest governmental body of the Soviet Union, recognized the bankruptcy and collapse of the Soviet Union and dissolved itself.

25 de dezembro de 2009

notes pour une petite histoire non chronologique de la critique d’art n.5, par E. after a spectacular attempt of escaping the riots in Bucarest by helicopter on December 22, Nicolae Ceauşescu and his wife Elena — the last of the Eastern Europe communist dictators — were sentenced to death, on Christmas Day, by a military court on charges ranging from illegal gathering of wealth to genocide. An amateur video of the trial showed that after sentencing, the prisoners had their hands tied behind their backs and were led outside the building. The Ceauşescus were executed by a firing squad consisting of only

four willing elite paratroop regiment soldiers while reportedly, hundreds of others also volunteered. the firing squad began shooting as soon as the couple was in position against a wall. unfortunately, it all happened too soon for the film crew covering the events to record it. It was a statement that the communist film industry, in spite of their best efforts, was seriously handicapped when compared to Hollywood.

22 de dezembro de 2009

captura da ação : começamos [os três, Ismar, Felipe e eu] a colocar as latas e garrafas e pratinhos de plástico em enormes sacos de lixo, vamos de um lado para o outro mas a música não nos deixa, neste segundo nós somos o oficial nazista Brüll, cheios dessa música que, sem ele, sem sua ajuda, jamais teria visto a luz do dia. descemos as escadas, atravessamos a sala de jantar, o elevador e a portaria.

e a rua que segue, o prédio que segue, mas a verdade é que sem o oficial nazista não haveria nada desse amor, Jesus talvez não fosse imortal. você sabe disso : foi Brüll quem conseguiu as partituras, o lápis, a borracha – e a caserna vazia para que Messiaen pudesse compor em paz. é a vida que segue, em 24 de julho do mesmo ano, nós sabemos, no Theatre des Mathurins em Paris [première "officielle" du Quatuor, en présence du compositeur, libéré par le nazi], e nas casas de boa família, em 2009, dobrando a Rua Nascimento Silva, esquina com Maria Quitéria.

video
e a música, as cores, o carro, o trânsito, a câmera.

21 de dezembro de 2009

Daniel, ouvi o Quatuor. quando se tem a informação sobre como e quando a música foi composta, a percepção é outra... nós sentimos "diferente". Infelizmente não dá para saber o que o Bach estava passando quando compôs a suite para violoncelo. Papai.

[pois eu estou inteiramente de acordo, nos sentimos mesmo "diferentes", assim como você diz. e é porque toda questão estaria então em descobrir o que significam estas aspas, esta diferença primeira, esse estranhamento fundamental - o que eu pretendo, pai, fazer a partir de AGORA - e ação]

et je voudrais ajouter, peut-être pour commencer, peut-être pour donner suite a quelque chose, que le jaune n'était pas la couleur du triangle des prisioniers de guerre, sinon celle de l'étoile à 6 pointes que les nazis faisaient porter aux juifs en signe d'humiliation.


- dis, ça te sonne quelque part, papa ? cette affiche, cette musique, ce film ?

19 de dezembro de 2009

segue-se longo silêncio. Meu amigo, a título de remate: sabe o que o Messiaen dizia desse andamento? Que era “todo amor” (Louange a L'immortalité de Jésus). deve ser mesmo — mas eu não sei disso, esse amigo não sou só eu. sou eu, é certo, mas não só eu. recordo no entanto do Felipe ali, de pé, o corpo longo e rijo, contando tudo isso a Ismar com um sorriso calmo, leve, enquanto as últimas notas do piano repetidas ainda rebatiam sobre as teclas em nossos ouvidos, o violino num agudo na fronteira do inaudível. Composto aquando de sua detenção em Görlitz, 1941 (Stalag VIII-A), um campo para prisioneiros políticos. o céu escuro, chapado, da Polônia. pássaros ?

[Messiaen deve notar, o prisioneiro católico é também ornitologista]

[how’s the weather ? faço círculos definidos com o corpo pelo terraço molhado. Mamãe parece querer denegar o problema. Nadja lânguida lê Roland Barthes (Mythologies ?) no sofá, trazendo o cigarro à boca em intervalos regulares. o som de pancadas sobre o teto branco de zinco é igualmente constante.

— o telefone não toca, não é Ismar, não é Felipe. chove]

Diálogo : Meu amigo se põe de pé e pergunta o que achei da peça. ele olha fixo, espera. [quem ?] sabe o que fez Ismar ouvir naquele fim de madrugada. [o quê ?] Possivelmente a coisa mais triste que já ouvi na vida. Basta dizer que houve Mahler, Satie, Cage, mas nada como o último andamento desse “Quatour”. estrias alaranjadas no céu, talvez num processo de amarelo. pássaros ?

[ninguém nota].

17 de dezembro de 2009

tenho andado em círculos pela cobertura, no Rio de Janeiro, há alguns dias pensando em como falar com minha Mãe sobre o mais urgente. eu estou aqui, os meus pés brancos molhados da chuva que se abate sobre a cidade, sem uma agenda telefônica conseqüente. eu estou aqui, falando sozinho, mas para todo mundo : 8627-8429.

e anoto num guardanapo :
à Paris, pas de pilotis !

10 de dezembro de 2009

e foi porque, fora de qualquer possibilidade de uma volta razoável, eu tive de voltar, um ano depois, àquela cobertura de Ipanema. mas não só eu ! Nadja também. para que pudéssemos, juntos, figurar todas aquelas histórias, quase lunares de tão distantes, mas ainda inscritas em profundidade, como aqueles pássaros de preto profundo, linha por linha, naquelas paredes ásperas, naquele chão cor de terra, naquelas portas descascadas, e naquele céu estriado que ninguém deveria notar — enfim, para encarnarmos as marcas estruturais da violência, da nossa, e termos com minha pobre velha Mãe sobre o mais urgente da Arquitetura.


o problema da destruição.

Mãe : — cuidado, eu diria, ao destruir qualquer coisa que outros levaram tempo para construir [uma sociedade, uma cidade, uma edifício]. e depois "à quoi bon" ? [você dizia... quando ao contrario] propor um movimento de sobreposição à existência e aos limites do cubo pode trazer incríveis surpresas ou apenas novos pensamentos que em si comportam a próxima revolução...

Le Corbusier - projet pour le Palace des Soviets à Moscou, 1932, sur le site de la cathédrale du Christ sauveur, démolie le 5 décembre 1931.

Filho pródigo : — à quoi bon ? você diz, mas eu sei, Mãe, à quoi bon... então não se faça de sonsa, madama Tania Chueke, não se faça de desentendida ! porque você sabe, você sabe de tudo, foi você mesma quem me ensinou a ver a arquitetura, não o Bruno Zevi, ou o senhor Jeanneret ! a ver que o papel vegetal estendido sobre a sua mesa de trabalho nunca passou de uma abstração ! que em verdade nunca houve folha em branco ou terra virgem ! que nunca houve tal coisa como um primeiro traço ! como uma primeira idéia ! como a iluminação construtiva !

eu sei, você tem de saber ! é o seu trabalho ! a sua arte, o seu sustento ! então por que não me dizer ?

que toda primeira pedra estraçalha o corpo de alguém ! para me poupar, Mãe ? os mortos ! os mortos ! os desabrigados que colocamos para fora para acolher os nossos ! você queria que eu descobrisse por mim mesmo ? o peso da pá escavando a terra, do martelo fraturando os ossos do crânio ? as estruturas da violência ? das vigas, pliastras e pilares ? da casa, do cubo, do amor, da cidade de alguém ? a violência ? a violência ? é a minha ! é a minha também ! pronto,

você vê, Mãe ? você me vê ?

disparando à queima roupa ?


2 de dezembro de 2009

variação nº2. suponhamos que seja o final de uma festa, no terraço de um amigo. as pessoas já foram embora [mesma noite, o mesmo céu ?] deixaram latas de cerveja pela metade em roda da piscina pespontada de verdes e azuis. ok, vamos tentar assim então : descrição. a suposta câmera, num primeiro momento, projetaria o foco sobre as coisas : os ladrilhos, as latas, a piscina, as plantas, a grande mesa de centro, as poças de vinho, os tantos cinzeiros, o violão, os tatames, as espreguiçadeiras, os bancos e as cadeiras... para que então mais tarde naquela mesma noite, e somente então, pudesse ela pensar em abrir a si mesma em projeção, em abrir o seu próprio campo, para muito além destas coisas visíveis. daria assim a maquina a ver àqueles olhos planos da juventude carioca essa profundidade inesperada de 2008,


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Ismar,

a arquitetura ? isto é, você teria à época visto esse entorno invisível das coisas e dos corpos, que é feito de céu em estrias alaranjadas, de paredes ásperas, e de um piso claro cor de terra ? - eu tampouco, sabe ! - mas é que me parece mais claro hoje, um ano depois : que o espaço e o aberto já seriam tão vastos aquela hora, e a lente tão larga, que já não poderíamos mais saber, nem eu nem você ou Felipe, se aqueles sons, lentos, distantes, lunares, que nos amanheciam, vinham de cima ou dos pássaros, pintados de um preto profundo pela Mariana, sobre aquele pano estirado no chão da cobertura de Ipanema.