2 de fevereiro de 2009

(essa velocidade não é só aceleração da matéria, é dinamismo. dinamismo inerente às massas informadas por B., da massa física ela mesma enquanto questão formulada ao meio, em meio, ao mundo, ao seu: o que pode significar política em 2008-9? depois de 1968-9? uma política no tempo? a política do tempo? do despertar? do desprendimento no tempo? do outro monte, do outro bando de Paris? d'um aparelho pós ideológico, aberto, arquivo, ferramenta? uma política da amizade? E/L.n.? — e eu te disse hoje ainda Lucas, enquanto você trabalhava no cubo ao lado em seu livro de variedades francesas, escuta isso: "mais lorsqu'on donne la liberté (da edição, por exemplo, L.), à des gents disciplinés, alors vous voyez — comme on l'a vu, je crois, dans les performances avec David Behrman, avec Gordon Mumma, avec Alvin Lucier, avec Lowell Cross, quelquefois tous ensemble, ou dans une œuvre à laquelle participaient beaucoup de ceux que je viens de nommer, avec en plus Marcel et Tenny Duchamp et moi-même à Toronto, quelque chose qui s'appelle Réunion  dans ce cas-là vous donnez l'exemple d'une société qui a changé, pas d'un individu qui a changé (E. por exemplo), mais un groupe d'individus, et vous démontrez, comme j'ai voulu le faire, l'aspect pratique de l'anarchie". isso é John Cage, alguns anos depois da morte de seu amigo Marcel Duchamp em 68'. e você me disse: me passa o livro depois? e eu: passo, claro, assim que acabar. e como você pediu, não fecho o parênteses, pra seguir a conversa. dá um pulo aqui e a gente toma um café moído na hora. aquele abraço, L.

E. 

E/L.11 não pudesse, por definição, e que por isso se vissem constrangidos a declarar, como o fizerem, oficialmente:

« il y a une mobilisation, mais ce n'est pas une extrême mobilisation. c'est moins que les défilés contre les retraites, en 2003, et contre le CPE, en 2006 » 

e em tom de desdém 

« ce n’est que de la  prose déclamatoire, incohérente et bouffonne, simple fumisterie ».

sei que parece absurdo mãe, mas é que hoje ainda, há o que se destruir em Montmartre, cem anos já, enquanto seu Moulin de La Galette (8° 53 14.63 N, 2° 20 13.36E) não tiver sido engolido por uma estação de metrô muito maior do que Abbesses ou Lamarck, sua Place Du Tertre (48° 53 12 N, 2° 20 27 E)! le mouvement agressif, l'insomnie fiévreuse, le pas de course, le saut mortel, la gifle et le coup de poing! o despertador, o sol, a auto-estrada, a cidade — a noção de cidade, Paris depois das 23 horas! de 1, 1 à 2,5 milhões de manifestantes nas ruas, 300 mil em Paris na direção de Opera Garnier! a marca do punho próprio de uma certa juventude enamorada das máquinas, trens, aviões, metrôs, canos e tubos de aço! à la une du Figaro du 20.02.1909, du 29.01.2009, vous vous figurez une chose pareille, madame? ces petits plaisirs hors du temps et ces grandes souffrances cubiques, non ? ora, parce qu’on s’y attache, você não retornou minha mensagem, pela escrita francamente obsessiva do tempo no meu caderno preto Moleskine 2008-9 et boutez donc le feu aux rayons des bibliothèques ! porque cubos não fazem rodar as rodas do trem! porque o metrô ainda não se move rápido o bastante! não passa por cimano meiodentro de Sacré-Cœur, não faz crescer arranha-céus em seu caminho, não funciona de noite, não faz o estrondo ensurdecedor do futuro, não acorda os vizinhos, gritei na rua à pleine voix à bas le nu en peinture!  il faut détruire Montmartre! porque não inunda museus, não sai explodindo da terra, não atropela o presente pelo caminho!  porque o colossal elevador de aço da estação Abbesses ainda não é grande o suficiente! ainda não é concreto o suficiente! como o tempo! como o tempo! mãe, porque ainda se pode sentar, nos bancos, nos eixos, no metrô em direção à Montmartre. 

video 

   
E/L.9 mãe, ontem acordei para destruir Montmartre, para pôr o nu em pintura, o cubo e o espaço cartesiano à baixo, para tomar a butte ela mesma, que fique claro — pois não poderia haver e não há, em 29.01.09, e isso é um statement político! lugar para metáforas em Paris enquanto seu Moulin de La Galette (8° 53 14.63 N, 2° 20 13.36E) não tiver sido engolido por uma estação de metrô muito maior do que Abbesses ou Lamarck, sua Place Du Tertre (48° 53 12 N, 2° 20 27 E) atravessada por ônibus e trens arrancando à todaguinchando nos ruídos e gritos enfurecidos de suas marchas de tração aquelas crumbling old houses, rotting walls, fences hiding mountains of excrement – 

E/L.5 para eles que, não tendo como reter esse movimento, precipitaram-se a pendurar tudo nas paredes de um enorme cubo pra ver se parava, e um século mais tarde, mas ainda ontem (2009) estavam comemorando o encerramento (em 26.01.09) da exposição le futurisme à Paris – une avant-garde explosive. e puseram longe de Montmartre, em Beaubourg, onde a ironia inscrita nos muros da exposição não pudesse alcançá-los, pois nunca se sabe o que esses vanguardistas são capaz: et boutez donc le feu aux rayons des bibliothèques ! détournez le cours des canaux pour inonder les caveaux des musées ! oh ! qu’elles nagent à la dérive, les toiles glorieuses ! — ironia 

E/L.6 que se desdobrou n’um riso surdo, meu, ha!, 

E/L.10 porque as autoridades não podem pensar a cidade de Paris senão nestes eixos: latitude (abréviation: Lat. ou (φ) prononcé phi) et longitude (abréviation: Long. ou (λ) prononcé lambda), senão nos eixos lamda/phi que são os de Montmartre. porque as autoridades, nos lembram os futuristas, são essencialmente cubistas, e de um cubo inerte, nos lembra B., não se pode derivar o movimento dinâmico do futuro! de um espaço restrito à única figura do espaço (mesmo decomposto analiticamente em n dimensões) não se pode derivar o tempo concreto! — ou a duração, nas palavras de B. em 1907, ou o absoluto em que vivemos, na dos futuristas (primeiros leitores, dois anos mais tarde), sonhando então com uma futureidade de vida de tal forma absoluta que a coisa toda não pudesse ser diversa, se dar de outra forma, que a eterna velocidade onipresente não pudesse senão condenar à obsolescência todo e qualquer presente possível, toda coordenada, todo x, y, z, todo eixo, toda cadeira, toda cama, fazendo com que sentenças como “o Tempo e o Espaço morreram ontem”  sejam coisas que os cubos não pudessem cernir, e

E/L.8 que era plano de tomada de Montmartre, exigindo eu também dos cubos movimento, do espaço do bistrô duração, e da analítica cor pastel de G. Braque e seu duplo franco-espanhol o brilho das lâmpadas General Electrics. todos contra o cubismo, voulant comme les futuristes exalter le mouvement agressif, l'insomnie fiévreuse, le pas de course, le saut mortel, la gifle et le coup de poing, o despertador, o sol, a auto-estrada, a cidade — a noção de cidade, Paris depois das 23 horas!

transcrevo o fim do manifesto contra Montmartre, que sintomaticamente não se encontra em parte alguma em francês: —

And in the evening, when the sun goes down, the brilliant beams of a thousand electric lamps will pierce the great highways filled with noise and movement.

The majestic facades with their multicolored electric signs will light up violently; the wild trembling of our wonderful speed machines will be heard, and at the window of your advertisements will wheel tirelessly against the sky, conquered at last”. (F.D.M).


E/L.4 porque ontem mãe, 29.01.09, era agora ou nunca a juventude — o beijo na face foi como um tapa, o despertador, o sol, o aparelho, a fumaça, o punho próprio cerrado, o appel à Grève Générale en France. todos esses nomes do cubo vazado pelo tempo. pelo tempo da própria escrita, da história, da convulsão, da narrativa, pela escrita francamente obsessiva do tempo no meu caderno preto Moleskine 2008-9. no meu e no de T. Marinetti,
o caderno de 1908-9-10, que eu li assim encantado como se olha um desenho, mais intuindo que entendendo, uma imagem do próprio tempo, esboçando e registrando a violência do futurismo como engrenagem lógica da amizade.

ou de quando e como o tempo concreto, vindo d’uma inesperada Itália tardiamente pós-Giotto, informada das pesquisas do francês B., fez por bem invadir os cafés de Montmartre à pontapés, como se n’um happening sessentista, escandalosamente prefigurando o happening sessentista e todas esses soirées dada e surrealistas que o tempo viria a registrar. um único caderno impresso, a marca do punho próprio de uma certa juventude enamorada das máquinas, trens, aviões, metrôs, canos e tubos de aço, à la une du Figaro du 20.02.09, vous vous figurez une chose pareille, madame? à la une! solapando as cadeiras e assuntos de todo dia (de ordem naturalmente transcendental, é claro) aos cavalheiros aí instalados — porque estava escrito em francês e era para eles : 

[le courage, l'audace et la révolte, éléments essentiels de notre poésie]

poetas franceses que não tendo como fugir ao som de sua própria língua, antes tão somente impressa na inércia dos caracteres decorativos de seus cardápios, nas carcaças francofônicas das ostras e patês, língua ora feita estrangeira no tumulto na sudorese e no grito estrangeiro 

[les foules, agitées par le travail, par le plaisir et par l'émeute] 

E - você acha que eu separo em três partes, cara? ficou bem grande esse. L - por que você não separa em mil partes pequenas? E - acha? L - por que não? E - sabe o que ? por que você não faz isso? 
L - tá.  (e mais tarde) E - e aí? L - 11. E - lindo.
editado 
por Lucas C e E : 
uma tentativa                                  de E/L.n. 
E/L.2 ces petits plaisirs hors du temps et ces grandes souffrances cubiques, non ? écoutes, je le sais bien, je me rappelle d’il y a quelques années, quand t’as connu toi aussi Santa Teresa, as suas casinhas, seus jardins, seus pássaros, suas aventuras sentimentais. e todo esse fumier qu’on tente, ensemble et il y a un siècle déjà, de faire la prise. et qui résiste mieux que la Bastille et toute la longue et belle histoire de la monarchie des dauphins et dauphines. por que? oraparce qu’on s’y attache, voilà pourquoi, aux chaises, à l’histoire, porque toda a gente senta, nos cafés. e fuma, e come e bate fotos. de Montmartre. à Montmartre. mas você me disse há pouco tempo acorda, 

1 de fevereiro de 2009

E/L.7 às 10 da noite do mercredi 28, ao ouvir anunciar nos alto-falantes do mesmo centro G. Pompidou: demain, le jeudi 29, la BPI [bibliothèque populaire d’information] sera fermée à cause de manifestations sociales. ontem, à l’aube du jeudi noir à Paris, eu acordei meio futurista, e o beijo na face foi como um tapa [la littérature ayant jusqu'ici magnifié l'immobilité pensive, l'extase et le sommeil], e o aparelho, a fumaça, o punho próprio cerrado, o appel à Grève Générale en France, 

[rotativas: le Figaro noticia à la une ! os conflitos de ontem (1909-2009) : de 1, 1 à 2,5 milhões de manifestantes nas ruas, 300 mil em Paris na direção de Opera Garnier, onde finalmente, aí pelas 20 horas, um grupo se choca com alguns dos 60 mil policiais previstos].

o coração na boca, 29 de janeiro 09’, guarda bem essa data, mãe! e saí por aí com um folheto rosa no bolso, distribuído cinicamente na exposição no Pompidou, e que dizia: place à la pioche futuriste! Montmartre aura vécu! e lado a lado de agentes metroviários, sindicalistas, pesquisadores, gente do publico e do privado, gritei na rua à pleine voix à bas le nu en peinture!  il faut détruire Montmartre! palavras d’um manifesto de 1913 do pintor Felix Del Marle, único autêntico francês futurista segundo Appolinaire, palavras que adotei como plano de ação.

E/L.3 coração, e eu não entendi se era pra acordar também o coração ou só 
pra tirar o corpo da cama, 
  porque até agora você não/ retornou minha mensagem, 
mas queria te dizer que em não entendendo, 
na dúvida, 
fui   e fiz os dois.